HMI em Molares Decíduos: Sinal Precoce de Risco
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Quando a hipomineralização dá sinais cedo: o que o clínico precisa observar hoje para prevenir problemas maiores amanhã

Um grande estudo com mais de 70 mil crianças mostrou que a hipomineralização em molares decíduos pode funcionar como um importante sinal de alerta para alterações futuras na dentição permanente. Para o dentista clínico, isso reforça a necessidade de reconhecer precocemente essa alteração e transformar esse achado em monitoramento, orientação e planejamento clínico mais estratégico.

A hipomineralização molar-incisivo (HMI) vem sendo cada vez mais reconhecida na prática odontológica, não apenas pela frequência com que aparece, mas pelo impacto clínico que pode causar, como sensibilidade, fratura pós-eruptiva do esmalte, maior dificuldade restauradora e maior demanda de acompanhamento, desafios constantes na odontopediatria. Nesse contexto, o artigo publicado no International Journal of Paediatric Dentistry em 2026, a revista de maior impacto para a odontopediatria, traz uma mensagem importante: a presença de hipomineralização em segundos molares decíduos (HSPM) pode ser um marcador clínico útil para identificar crianças com risco aumentado de MIH.

O estudo analisou mais de 70 mil crianças de escolas públicas de Zurique, com 851.685 observações realizadas entre 2005 e 2019, por meio de análises transversais repetidas e de uma coorte longitudinal retrospectiva. Os resultados mostraram aumento nos diagnósticos ao longo do tempo: a prevalência de HSPM em crianças de 5 anos subiu de 5% para 13%, enquanto a de molares permanentes hipomineralizados em crianças de 8 anos aumentou de 12% para 21%. Vale lembrar que esse dado de prevalência varia muito de país para país.

O dado mais relevante para a prática clínica foi a associação entre HSPM e MIH. Crianças com HSPM apresentaram aproximadamente o dobro de chance de desenvolver hipomineralização em molares permanentes, com OR de 2,3 e PR de 1,9, o que fortalece o uso da HSPM como sinal precoce de risco clínico.

Na rotina do consultório, isso significa que os segundos molares decíduos merecem atenção além da cárie. Opacidades demarcadas, alterações de cor do esmalte, fragilidade estrutural e perdas pós-eruptivas devem ser registradas de forma cuidadosa, porque podem antecipar a necessidade de vigilância mais próxima da erupção dos primeiros molares permanentes.

Do ponto de vista prático, o clínico pode usar essas informações de algumas formas:

  1. Incluir a investigação de HSPM no exame clínico de rotina de crianças em dentição decídua e mista inicial;
  2. Registrar os achados em prontuário com descrição padronizada e, sempre que possível, documentação fotográfica;
  3. Reavaliar periodicamente pacientes com HSPM durante a fase de erupção dos primeiros molares permanentes;
  4. Orientar pais e responsáveis sobre maior risco de sensibilidade, quebra do esmalte e necessidade de acompanhamento preventivo mais próximo;
  5. Planejar intervenções preventivas e restauradoras de maneira antecipada em pacientes com maior risco de MIH.

Esse raciocínio clínico é valioso porque permite sair de uma postura apenas reativa e avançar para uma abordagem de risco. Em vez de identificar a MIH apenas quando o molar permanente já apresenta sensibilidade intensa ou fratura do esmalte, o profissional pode reconhecer um marcador anterior e preparar o seguimento clínico da criança com mais precisão.

Ao mesmo tempo, é importante interpretar o estudo com senso crítico. Os autores destacam que se trata de uma análise retrospectiva e que pode haver variabilidade entre examinadores ao longo dos anos, o que limita inferências causais mais fortes. Ainda assim, o tamanho da amostra e a consistência da associação observada tornam o trabalho muito relevante para a prática clínica e para a odontopediatria baseada em risco.

Para o dentista clínico, a principal mensagem é simples e útil: quando a HSPM aparece, ela não deve ser vista como um achado isolado. Ela pode ser o primeiro aviso de que aquele paciente exigirá observação mais atenta, prevenção intensificada e decisões restauradoras mais bem planejadas na dentição permanente.

Referências

Saxer T, Gharaviroudsari S, Diener V, Wiedemeier D. Increasing Diagnosis of Enamel Hypomineralisation in a Sample of More Than 70 000 Children in the City of Zurich: Repeated Cross-Sectional Prevalence Analyses and a Retrospective Longitudinal Cohort Analysis. International Journal of Paediatric Dentistry. 2026. doi: 10.1111/ipd.70110

Espero que a leitura tenha te ajudado com os pacientes.

Sucesso!

Até mais,
Carla S. Pereira

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Carla Pereira

Graduada em Odontologia pela UFSC em 2009
Especialista em Odontopediatria - PUC/PR, 2011
Habilitação em Sedação Consciente com Óxido Nitroso, 2011
Mestre em Odontologia / Área de Concentração Odontopediatria - UFSC/SC, 2015
Clínica Privada em Curitiba/PR desde 2009.
Presidente da ABOPED, Regional Santa Catarina 2017/2019.
Professora e Coordenadora do Curso de Especialização e Atualização em Odontopediatria desde 2015
IAPD Membro do board 2019/21, 2021/23, 2023/25 - Membership Committee
Idealizadora da CAIXA GUIA - Odontopediatria, 2015
Clinical Adviser NuSmile no Brasil, desde 2019
Co-Fundadora e Diretora Acadêmica da Academia da Odontologia, 2020
Professora e Coordenadora do Curso de Especialização e Atualização em Odontopediatria - Caxias do Sul/RS desde 2022
Idealizadora do Estabilize, 2023
Fundadora, Membro e Secretária Financeira da SOBRASO

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