CTZ OU PASTA GUEDES-PINTO?
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Odontopediatria

O Brasil, por ser um país de dimensões continentais, apresenta diferenças culturais e estruturais marcantes. Essas variações se refletem não apenas nos modos de viver e nas práticas sociais, mas também na área da saúde, influenciando diretamente o acesso a materiais odontológicos e a conduta clínica dos profissionais em diferentes regiões do país. Levando essa afirmação para a odontopediatria, podemos dizer  que ao conversar com colegas, muitas regiões usam mais certas técnicas, e isso acontece com a área de endodontia de dentes decíduos.

A região de São Paulo sempre se destacou na Odontopediatria brasileira, abrigando algumas das maiores universidades do país e reunindo profissionais de referência que influenciaram gerações de dentistas. Entre esses nomes está o Professor Guedes, uma figura lendária da área.

Autor de diversos livros — incluindo uma obra que, por anos, foi considerada a verdadeira “bíblia da Odontopediatria” —, o Professor Guedes também foi o criador da Pasta Guedes-Pinto, uma medicação intracanal amplamente utilizada em tratamentos endodônticos de dentes decíduos.

Com o passar do tempo, surgiu a Pasta CTZ, também desenvolvida no Brasil, que se tornou uma alternativa e, de certa forma, uma concorrente direta. Diferente da Guedes-Pinto, a CTZ conquistou seu espaço primeiro na prática clínica, ganhando posteriormente reconhecimento na literatura científica, o que reforçou seu uso no contexto da Odontopediatria contemporânea.

Hoje, o blog traz o resumo de um artigo científico que comparou a Pasta Guedes-Pinto e a Pasta CTZ, duas técnicas amplamente utilizadas no tratamento endodôntico em dentes decíduos. O conteúdo foi pensado especialmente para você, dentista clínico que atua no atendimento infantil, e busca entender qual medicação intracanal oferece os melhores resultados na prática odontopediátrica.

Aqui vai um resumo do artigo “Two endodontics techniques analysis in primary molars with fistula” (Siegl et al., 2015)

https://www.scielo.br/j/rgo/a/L4hnrCT7zCRxYTTGZBgRRsv/?lang=en

Objetivo

Avaliar radiograficamente a alteração na área radiolúcida na região de furca e o comportamento clínico de molares decíduos com fístula, tratados por duas técnicas endodônticas simplificadas, usando diferentes materiais (pastas) de preenchimento. 

Métodos

  • Amostra: 28 molares decíduos necrosados (3-7 anos) com fístula e área radiolúcida na furca.
  • Divididos aleatoriamente em dois grupos:
    • G1: pasta Guedes-Pinto (GP)
    • G2: pasta CTZ (mistura de cloranfenicol, tetraciclina, óxido de zinco, com eugenol)
  • Executado sem instrumentação de canais radiculares, com isolamento relativo. O material foi colocado apenas na câmara pulpar, exercendo leve pressão até a entrada dos canais.
  • Radiografias obtidas no início, após 6 meses e após 12 meses. As imagens foram digitalizadas e a área radiolúcida na furca medida em pixels por examinadores cegos.
  • Análises estatísticas: teste Kappa para confiabilidade entre examinadores; ANOVA e teste de Tukey para comparações temporais dentro de cada grupo; teste t para comparação entre os grupos.

Resultados

  • Perda de parte da amostra: dos 28 dentes, apenas 10 em cada grupo permaneceram para análise após perdas (perda de seguimento ou necessidade de extração)
  • Clínica: em ambos os grupos, após 12 meses, não houve recorrência de fístula.
  • Radiografia / área radiolúcida:
    • No grupo tratado com pasta CTZ (G2): houve redução significativa da área de radioluscência na furca em 6 meses e 12 meses em comparação ao início (p < 0,01). 
    • No grupo da pasta Guedes-Pinto (G1): não houve redução estatisticamente significativa após 12 meses (p = 0,09) 
  • Algumas complicações: no grupo G1, 2 dentes foram extraídos durante o follow-up de 6 meses (aumento da radioluscência e uma interrupção do alvéolo do sucessor permanente) 

Conclusão

  • Clinicamente (sinais como fístula, dor, etc.), ambos os métodos tiveram respostas semelhantes após 12 meses.
  • Radiograficamente, apenas o grupo com pasta CTZ mostrou recuperação (redução da área radiolúcida na furca) significativa aos 6 e 12 meses. 
  • Portanto, de acordo com o estudo, a técnica simplificada com Pasta CTZ demonstrou ser mais eficaz no reparo radiográfico em casos de necrose pulpar com fístula em molares decíduos, quando comparada à técnica com Pasta Guedes-Pinto, dentro das condições avaliadas.

Além disso, deixamos mais 2 links de artigos abertos que podem aperfeiçoar sua compreensão sobre o tema:

https://pdfs.semanticscholar.org/3569/545e0906469d24098a40eb3d335e2e3d6283.pdf

https://www.scielo.br/j/mr/a/43B6GCBdHn7jqZ79T4mrdnm/?lang=en

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Carla Pereira

Graduada em Odontologia pela UFSC em 2009
Especialista em Odontopediatria - PUC/PR, 2011
Habilitação em Sedação Consciente com Óxido Nitroso, 2011
Mestre em Odontologia / Área de Concentração Odontopediatria - UFSC/SC, 2015
Clínica Privada em Curitiba/PR desde 2009.
Presidente da ABOPED, Regional Santa Catarina 2017/2019.
Professora e Coordenadora do Curso de Especialização e Atualização em Odontopediatria desde 2015
IAPD Membro do board 2019/21, 2021/23, 2023/25 - Membership Committee
Idealizadora da CAIXA GUIA - Odontopediatria, 2015
Clinical Adviser NuSmile no Brasil, desde 2019
Co-Fundadora e Diretora Acadêmica da Academia da Odontologia, 2020
Professora e Coordenadora do Curso de Especialização e Atualização em Odontopediatria - Caxias do Sul/RS desde 2022
Idealizadora do Estabilize, 2023
Fundadora, Membro e Secretária Financeira da SOBRASO

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