Impacto de traumas em dentes de leite sobre a dentição permanente
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Blog da Academia

IAPD - International Association of Paediatric Dentistry

Análise do artigo “Sequelae in Permanent Dentition After Traumatic Dental Injury in the Primary Dentition—A Retrospective Cohort Study” (2025)

Introdução

Traumas dentários em crianças pequenas são bastante comuns — especialmente na dentição primária — e embora muitas vezes pareçam “apenas” um dano passageiro, os efeitos podem ir além do momento do acidente. O estudo de Anne‑Marie Folmer, Eva Lauridsen, Josephine Solgaard Henriksen e Nuno Vibe Hermann publicado no *International Journal of Paediatric Dentistry (Volume 35, Nº5, 2025) investiga especificamente as sequelas na dentição permanente após traumas de luxação em predecessores primários. 

Este blog visa apresentar os principais achados, implicações clínicas e recomendações para profissionais e responsáveis por crianças.

Objetivo do Estudo

O estudo teve como objetivo descrever e analisar a ocorrência de quatro tipos de alterações — opacidades difusas, opacidades demarcadas, hipoplasia de esmalte e malformações — nas sucessoras permanentes (dentes que se formam posteriormente) quando houve trauma de luxação nos dentes primários.  Além disso, o estudo comparou essas ocorrências com dentes controle (sem trauma prévio) e investigou a influência da idade da criança no momento do trauma, bem como o tipo de luxação. 

Método

  • A amostra incluiu 206 pacientes com um total de 360 dentes permanentes potencialmente danificados (PDPT), resultado de trauma em predecessores primários.
  • Como controle, foram usados 1.057 dentes permanentes de crianças da mesma coorte, que não tinham predecessor traumatizado.
  • Os dentes PDPT foram catalogados em três faixas etárias da criança na época do trauma: 0-2 anos, 2-4 anos e ≥ 5 anos.
  • Os tipos de luxação considerados incluíram: concussão, subluxação, extrusão, luxação lateral, intrusão e avulsão.
  • A análise estatística utilizou o teste exato de Fisher para verificar associação (p = 0,05) e calculou risco relativo de sequela em dentes traumatizados versus controle.

Principais Resultados

  1. Risco elevado de sequela em dentes com predecessor traumatizado
    • O estudo identificou que o risco de desenvolver uma das alterações (opacidade, hipoplasia ou malformação) era mais de sete vezes maior nos dentes com predecessor traumatizado em comparação aos controles. 
  2. Idade da criança na época do trauma
    • Crianças da faixa 0-2 anos apresentaram maior incidência de hipoplasia e malformações.
    • Em faixas mais velhas (2-4 anos, ≥ 5 anos), embora houvesse ainda alterações, o risco era relativamente menor.
  3. Tipo de luxação e grau de lesão
    • Hipoplasia e malformações apareceram com mais frequência quando o trauma envolvia luxações mais severas: luxação lateral, intrusão e avulsão.
    • Opacidades (demarcadas ou difusas) foram encontradas em todas as faixas etárias e associadas a tipos variados de custódia, inclusive subluxação, extrusão, lateral, intrusão e avulsão. 
  4. Distribuição dos tipos de defeito
    • As opacidades (difusas e demarcadas) foram mais prevalentes no geral.
    • Malformações (como dilacerações de coroa, alterações da raiz) ocorreram principalmente nas crianças mais jovens com traumas graves.

Interpretação e implicações clínicas

  • A íntima relação anatômica entre o ápice dos dentes decíduos e o germe do permanente explica por que traumas em dentes de leite podem afetar o desenvolvimento normal dos permanentes.
  • Quanto mais cedo for o trauma (fase de formação do dente permanente), maior a chance de dano severo — porque o germe ainda está em processo de morfogênese ou amelogênese.
  • Luxações que implicam deslocamento ou avulsão (ou seja, dano significativo à posição ou ao osso de suporte) têm consequências maiores em termos de defeito de desenvolvimento.
  • Para o clínico em odontopediatria ou traumatologia dentária, isso significa que trauma em dente de leite não é algo que se possa simplesmente “deixar para ver depois” sem acompanhamento: o risco para o dente permanente sucessor é real.

Recomendações práticas

  • Avaliação inicial e registro cuidadoso: Ao tratar traumas na dentição primária, registre o tipo de lesão, idade da criança, dentes envolvidos, planos de acompanhamento.
  • Comunicação com os responsáveis: Explique que, apesar de um dente decíduo não “importar tanto” como permanente, o trauma pode influenciar o sucessor — acompanhamento é importante.
  • Follow-up de longo prazo: Acompanhar a dentição permanente sucessora, de preferência até a erupção completa e maturação, para detectar alterações precoces (opacidades, hipoplasia, malformações).
  • Prevenção e orientação: Especialmente em crianças pequenas (<2 anos), reforçar medidas de prevenção de quedas e traumas (supervisão, ambiente seguro).
  • Tratamento interdisciplinar: Em casos de sequela na permanente (por exemplo, hipoplasia de esmalte, dilaceração de coroa), pode ser necessária abordagem com dentística, ortodontia ou ortopedia funcional.

Limitações do estudo

  • Apesar de robusto, o estudo é retrospectivo, o que implica que há dependência de registros clínicos antigos.
  • Os dados foram recolhidos de um hospital universitário de Copenhague entre 1970-1985 (conforme descrição) — o que pode não corresponder totalmente à realidade atual ou a outras populações.
  • Algumas variáveis — como nutrição, exposição a flúor, outros fatores de risco para defeitos de esmalte — podem não ter sido completamente controladas.

Considerações finais

Este estudo reforça o conceito de que o impacto de um trauma em dentes decíduos não se limita ao “dente de leite” — há uma repercussão real sobre o que está por vir: a dentição permanente. Para o profissional de odontopediatria, o estudo significa que cada trauma merece atenção e acompanhamento. Para os pais ou responsáveis, que cada impacto, por mais aparentemente “leve”, pode ter consequências que só aparecerão anos depois e que VOCÊ COMO ODONTOPEDIATRA deve ser o responsável por orientar o RETORNO E ENFATIZAR a importância de um profissional infantil. 

A abordagem de dentes deciduos traumatizados não é a mesma do que dentes permanentes e você será a pessoa correta pra este acompanhamento. 

Afinal, independente do tipo de trauma, no momento não tem o que fazer com o dente permanente, a não ser acompanhar. Quando chegar a época, trataremos as consequências. Crianças saudáveis irão cair! Acostume-se com isso.

Agora deixo outra pergunta: você é o tipo do profissional que deixa seu telefone a disposição dos pais ou se nega a esta liberdade de contato? E aí vem a próxima pergunta: se você seu filho, você gostaria de ter alguém 24h para contar? 

Pense no outro como se fosse seu!
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Carla S. Pereira

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Carla Pereira

Graduada em Odontologia pela UFSC em 2009
Especialista em Odontopediatria - PUC/PR, 2011
Habilitação em Sedação Consciente com Óxido Nitroso, 2011
Mestre em Odontologia / Área de Concentração Odontopediatria - UFSC/SC, 2015
Clínica Privada em Curitiba/PR desde 2009.
Presidente da ABOPED, Regional Santa Catarina 2017/2019.
Professora e Coordenadora do Curso de Especialização e Atualização em Odontopediatria desde 2015
IAPD Membro do board 2019/21, 2021/23, 2023/25 - Membership Committee
Idealizadora da CAIXA GUIA - Odontopediatria, 2015
Clinical Adviser NuSmile no Brasil, desde 2019
Co-Fundadora e Diretora Acadêmica da Academia da Odontologia, 2020
Professora e Coordenadora do Curso de Especialização e Atualização em Odontopediatria - Caxias do Sul/RS desde 2022
Idealizadora do Estabilize, 2023
Fundadora, Membro e Secretária Financeira da SOBRASO

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