Hoje vamos comigo de “comentarista de artigo”, que tal? Vamos lá. Tentarei passar meu pensamento para vocês somando o que li do artigo sobre restaurações em dentes decíduos juntando o que vivencio no dia a dia clínico e nas dúvidas que muitos me pedem ajuda. Então, let’s go!
Hoje comentarei sobre o artigo publicado na International Journal of Paediatric Dentistry 2018; 28: 123–139 intitulado “Restaurações em dentes decíduos: uma revisão sistemática sobre sobrevivência e razões de falhas das restaurações” dos seguintes autores: Luiz Alexandre Chisini, Kauê Collares, Mariana Gonzalez Cademartori, Luisa Jardim Corrêa de Oliveira, Marcus Cristian Muniz Conde, Flavio Fernando Demarco e Marcos Britto Corrêa.
O objetivo da revisão foi investigar a longevidade das restaurações, ou seja, o quanto elas duram e as possíveis razões de falhas. Fizeram uma pesquisa de artigos com estudos clínicos de longevidade das restaurações classe I, II e coroas feitos com diferentes materiais em dentes decíduos com um acompanhamento de pelo menos 1 ano. 31 estudos foram incluídos e um total de 12.047 restaurações foram avaliadas com 12,5% de taxa de falhas. A taxa anual de falhas teve uma variação grande entre 0 e 29,9%. Restaurações em resina composta apresentou a menor taxa anual de falha (1.7-12.9%) e as coroas de aço com maior taxa de sucesso (96%). Ainda, restaurações classe I e com dique de borracha apresentaram melhor taxa; e a principal razão para o insucesso foi a cárie secundária (36,5%)
A conclusão foi que teve um elevado número de falhas nas restaurações devido a cárie recorrente e destacaram a necessidade de os profissionais trabalharem com uma abordagem de promoção de saúde. E ainda, consideraram que a alta variação na taxa de falha entre os materiais pode ser devido ao comportamento das crianças durante o procedimento, o que exige curtas consultas odontológicas e um ambiente controlado.
Sabemos que a doença cárie continua sendo de alta prevalência ao redor do mundo e afetando mais de 2.5 bilhões de pessoas com dentição permanente e 621 milhões de crianças com dentição decídua. O artigo relata que “fazer restaurações ou refazer restaurações é um dos procedimentos mais comuns na prática clínica” e ao ler isso me deixou muito chateada, meu pensamento foi: “meus colegas não podem estar desanimados com a Odontopediatria por terem que refazer trabalhos, por achar que isso é normal e comum, não! Nossa satisfação profissional não está apenas em fazer restaurações bonitas ou devolver sorrisos, mas sim em devolver a saúde bucal dos pacientes de forma mais definitiva, direta e objetiva para que nosso trabalho seja valorizado.
Mas aí já sei o que você está pensando, o mesmo que a conclusão do artigo disse: “alta taxa de falha devido ao comportamento da criança” e é aí que as vezes nos atrapalhamos. Costumo dizer que o comportamento da criança não deve decidir de imediato o tipo de material a ser utilizado e sim a lesão que deve ser a indicadora disso! Pense comigo: escolhemos fazer odontopediatria, certo? Já sabíamos que crianças não são adultos e que problemas de comportamento teríamos. E mais, as mães querem resolver logo o problema e isso também pesa em nossa decisão. Acontece isso com vocês também? Pois é. Porém, esquecemos que ao fazer uma restauração sem qualidade ou porque a criança não deixou, estamos criando outros problemas: a cárie recorrente, o retorno do paciente no consultório que nos custa tempo/dinheiro e isso também custa para a mãe.
Você já parou pra pensar em como os dentes que você restaurou de qualquer jeito ou sem a qualidade que você acreditava ter sucesso voltou nas outras sessões? Pior ou melhor? Você gastou mais dente para nova restauração? Você teve que por fim fazer tratamento de canal e depois extrair o dente? Inevitavelmente isso acontece e vejo mais e mais pessoas me relatando e pedindo socorro.
Existe diferentes materiais restauradores para diferentes fins e isso que deve ser levado em conta ao decidir um tratamento: a indicação de cada material com o tipo da lesão e deeeeeeepois o comportamento da criança. E não o contrário! Se vai decidir por utilizar técnicas de controle de comportamento, estabilização protetora, sedações ou um pouco de cada, tanto faz! Importante é que a maneira que você decidir em tratar o paciente obtenha sucesso para você sem que desestimule da profissão.
O artigo ainda relata que a longevidade das restaurações em dentes decíduos não depende exclusivamente do material e sim de vários fatores como: propriedade do material, habilidade do operador e características do paciente.
Fatores de risco para falhas foram avaliados em 10 estudos e, desses, seis encontraram alguma associação entre os aspectos investigados e fracassados. Os fatores de risco relatados nesses estudos foram: operador, preparo cavitário, uso de dique de borracha, idade do paciente, sistema adesivo, material, escavação de cárie incompleta e dentes tratados endodonticamente. Poucos estudos incluíram pacientes com alto risco de cárie.
Pontos que achei relevantes relatados pelo artigo ao escolher o material:
- Coroa de aço: em alguns casos você precisa desgastar estrutura de dente sadio, então veja se tem alguma outra opção de material que terá o mesmo sucesso que uma coroa. Minha opinião é que se eu não tenho material melhor para aquela opção de tratamento, prefiro fazer um desgaste em estrutura sadia, porém não ter recidiva de cárie e retorno no procedimento.
- Resina composta: se sua escolha for a resina lembre-se que resina é incompatível com a água então em pacientes que você não consegue colocar isolamento absoluto devido comportamento ou por outro motivo, opte por ionômero de vidro que é um pouco mais tolerante ao ambiente úmido e não tão criterioso em seus passos adesivos. Minha opinião é que só uso resina se consigo isolar o dente (mas lembre-se que isso não depende exclusivamente do comportamento do paciente e sim da opção em restaurar com resina).
- Ionômero de vidro: alguns autores consideram que a liberação de flúor pelo ionômero de vidro pode prevenir cárie e ele pode diminuir a desmineralização das paredes circundantes, porém não tem evidência clínica forte para isso. E ainda, a revisão mostrou que a principal razão para as falhas das restaurações foram a presença de cárie secundária, ou seja, a liberação de flúor pelo ionômero não afetou a longevidade das restaurações. Minha opinião é de que não faço a escolha pelo ionômero de vidro devido a possível liberação de flúor, mas sim quando preciso criar um manejo de comportamento na criança e a lesão me permite o uso do material, assim meu objetivo é selar a cavidade de futuras contaminações e possível progressão da lesão.
Não podemos esquecer que a falta de hábitos de higiene correto somando a uma dieta cariogênica faz toda diferença na presenças de novas lesões cariosas nas paredes do dente não restaurada, o que favorece o insucesso, então é claro que a coroa de aço em si impede com que isso aconteça devido ao selamento total do dente. Porém a coroa também mantém a placa aderida e isso causa um segundo problema, inflamação gengival (o que não é assunto para este post.
Também não posso esquecer de relatar que, embora revisão sistemática sobre restaurações em dentes decíduos seja um ótimo tipo de estudo para nos guiar com evidências científicas, é muito difícil a comparação dos estudos devido suas diferenças e muitas vezes ficamos sem respostas fortes e precisamos nos guiar também com nossa experiência clínica e o principal é ver onde estamos “falhando” em nossos tratamentos para tentar mudar. Pergunte-se: será que é o meu preparo? Será que estou usando isolamento absoluto? Será que o comportamento da criança está interferindo na minha decisão do melhor material a se usar? Comece com essas perguntas e será mais fácil de decidir seus próximos tratamentos.
Por fim, a revista escreve uma nota do “Porque este artigo é importante para os odontopediatras” e 3 pontos foram relatados:
- Resina composta mostrou a menor taxa de falhas anual e a coroa de aço o material com maior taxa de sucesso;
- Restaurações classe I feitas com isolamento absoluto apresentaram melhor resultado e a principal razão para as falhas das restaurações foram pela presença de cárie secundária;
- O grande número de falhas foi devido a presença de novas lesões cariosas e isso enfatiza a necessidade dos profissionais fazerem maior promoção de saúde no dia a dia e que o comportamento da criança pode afetar a qualidade dos procedimentos restauradores.
E por hoje é só! Espero que tenham gostado deste artigo sobre restaurações em dentes decíduos. Dúvidas entrem em contato pelo site ou mandem e-mail [email protected].
Beijos!
1Department of Restorative Dentistry, School of Dentistry, Federal University of Pelotas, Pelotas, RS, Brazil, 2Department of Pediatric Dentistry, School of Dentistry, Federal University of Pelotas, Pelotas, RS, Brazil, 3School of Dentistry, Catholic University of Pelotas, Pelotas, RS, Brazil, and 4Department of Graduate Program in Dentistry, School of Dentistry, Univates, Lajeado, RS, Brazil
International Journal of Paediatric Dentistry 2018; 28: 123–139
Por Carla S. Pereira.

