Testes de sensibilidade pulpar para diagnóstico, o que sabemos?
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IAPD - International Association of Paediatric Dentistry

Você, o odontopediatra já se deparou com uma situação difícil em que o diagnóstico da polpa de um dente decíduo não foi tão claro assim para decidir sobre o tratamento?

Pois é, se já aconteceu e você se culpou por isso, fique tranquilo que com certeza muitos profissionais da sua área também já vivenciaram essa experiência. Isso se explica pois o “sistema” pulpar dos dentes decíduos não funcionam exatamente como os dos dentes permanentes e isso traz uma angústia até os dias atuais para os pesquisadores e clínicos, nenhum estudo ainda tem 100% de certeza em como nos ajudar. 

Mas também não você não precisa “andar completamente no escuro” e entrar em desespero. Hoje nossa revisão de artigo científico traz um resumo e comentários sobre este assunto que podem te ajudar. E ainda, a indicação de leitura de uma dissertação de mestrado que contempla bastante conteúdo sobre isso também. com certeza após a leitura você ficará mais tranquilo.

O artigo científico escolhido para este tema  foi o intitulado:
“The ability of pulp sensibility tests to evaluate the pulp status in primary teeth”, publicado na IAPD – International Journal of Paediatric Dentistry 2011; 21: 441–445″

O que foi esse estudo

  • Publicado no International Journal of Paediatric Dentistry em 2011, por Hori, Poureslami, Parirokh, Mirzazadeh e Abbott. (PubMed)
  • Objetivo: ver quão bem testes de sensibilidade pulpar — frio, calor e elétrico — conseguem diagnosticar se a polpa (o “miolo” dentro do dente) está viva ou doente/necrosada em dentes decíduos (dentes de leite). (PubMed)

Como fizeram

  • Selecionaram 78 molares de leite em 36 crianças. Em 56 desses dentes já havia suspeita de necessidade de tratamento endodôntico (polpa comprometida), e outros 22 eram dentes “normais”, sem sinais de doença. (PubMed)
  • Aplicaram os três testes: frio, calor e elétrico (EPT). Depois, para confirmar de verdade se a polpa estava viva ou necrosada, abriram o dente (acesso) para ver se havia sangramento ou não — esse foi o “padrão ouro” para o diagnóstico. (PubMed)

O que descobriram

  • Precisão (accuracy): o teste elétrico (EPT) foi o melhor: conseguiu acertar mais vezes se o dente estava vivo ou não. Depois veio o teste de calor, e por fim o de frio, que teve desempenho um pouco inferior. (PubMed)
  • Sensibilidade (capacidade de detectar polpas vivas): EPT teve cerca de 80%, calor ~ 86,7%, frio ~ 73,3%. (Nature)
  • Especificidade (capacidade de identificar corretamente polpas não-vivas): EPT ~ 92,5%, frio ~ 75%, calor ~ 70,7%. (Nature)
  • Em resumo: o EPT se saiu confiável, calor também, frio um pouco menos. Mas nenhum é perfeito. (PubMed)

Implicações práticas

  • Testes de sensibilidade são úteis, mas têm limitações. Você pode ter falsos-negativos (“o dente não responde, mas a polpa ainda está viva”) ou falsos-positivos.
  • Para dentes de leite, em especial, dados anatômicos / fisiológicos (por exemplo canal pulpar grande, maturação etc.) podem impactar os resultados.

Ou seja, na odontopediatria as variáveis são diversas, então a sugestão agora para passar essa evidência científica para a prática clínica é:
Tratar o dente somente com a resposta de DOR, não é o correto. Uma vez que o “relato” da sensibilidade não é fidedigno pois estamos falando de uma criança que não tem maturidade para expressar corretamente, ainda, quem relata é outra pessoa TENTANDO verbalizar o que outra pessoa sente, não podemos considerar 100% para decisão do tratamento. 

As estruturas pulpares dos dentes decíduos não são iguais aos dentes permanentes, então o diagnóstico não pode ser exatamente realizado da mesma forma. Já sabe-se que o dente decíduos possui sua câmara pulpar diferente do dente permanente, assim como seus canais acessórios e seu assoalho. Assim, a resposta biológica frente a contaminação bacteriana não é a mesma e isso é claramente visto por exemplo nas lesões dos molares decíduos que são concentradas entre as raízes (e não no ápice como nos dentes permanentes) e na resposta à dor que não é imediata. 

A criança tem nuances de imunidade muito maiores que os pacientes adultos, e consequentemente isso se reflete na resposta pulpar para evolução de necrose ou não. Por isso que muitas crianças não sente dor de dente e ao serem examinados, os dentes já estão necrosados.

Com relação a maturidade da criança, não falamos apenas da parte psicológica mas também maturidade celular. Sabe-se que as células pulpares de dentes decíduos também tem seu tempo de maturidade e isso reflete a “não sensibilidade” do processo de necrose em um período da criança.


Exemplo clínico

Imagina a seguinte situação:

A criança Ana, 6 anos, chega ao consultório com dor intermitente em um molar decíduo inferior, que está com profunda lesão de cárie. O dente não mostra inchaço visível, mas há sensibilidade ao frio e ao calor — porém, o teste elétrico não gera resposta.

  • Com base no teste de frio ou calor, poderíamos pensar que há vitalidade (a criança sente estímulo).
  • Mas o EPT não detecta resposta, o que pode indicar comprometimento neural ou retratação — ou também simplesmente que o estímulo elétrico não está alcançando ou que a criança não consegue colaborar bem.

O que fazer?

  • Fazer radiografia para ver sinais de lesão periapical ou abcessos.
  • Verificar sensibilidade ao frio/quente em comparação com dentes vizinhos.
  • Considerar abrir o dente para ver se há sangramento pulpar (“teste de sangramento”) como verificação direta.
  • Se houver sangramento saudável, pode-se fazer terapias conservadoras (ex: pulpotomia). Se não houver, tratamento endodôntico pode ser necessário.
  • Alternativamente, uma imagem comparativa: três dentes de leite, onde em um usamos teste de frio, outro teste elétrico, outro calor — com legendas explicativas de cada estímulo.

Por fim, indico FORTEMENTE as aulas da Academia da Odontologia com relação à diagnóstico pulpar. Além disso, o curso presencial de Imersão em Odontopediatria em Curitiba, comigo e com a Profa. Angela, são 2 dias de curso que contemplamos vivencias clínicas, casos reais, revisão de protocolos clínicos, mais de 3 horas apenas de Diagnóstico Clínico e ainda o Hands On da NuSmile com a utilização das coroas e mantenedores de espaço.

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As turmas de 2026 já estão com reserva de vaga e serão apenas 20 alunos no ano, pois a imersão é de 4 pessoas, VIP!

“Aqui deixo a indicação da dissertação que comentei no começo do blog: 
Dissertação de Mestrado: Revisão sistemática: Critérios para diagnóstico de necrose pulpar em dentes decíduos.
Aluna: Bianca Serpa da Fonseca Del Negro de Moura
São Paulo (USP), 2017.
https://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/23/23132/tde-04042018-101358/publico/BiancaSerpadaFonsecaDelNegrodeMouraVersaoOriginal.pdf

Espero que tenha ajudado o seu diagnóstico com essa leitura e também que nosso encontro seja em breve!

Até logo, com carinho,

Carla S. Pereira


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Carla Pereira

Graduada em Odontologia pela UFSC em 2009
Especialista em Odontopediatria - PUC/PR, 2011
Habilitação em Sedação Consciente com Óxido Nitroso, 2011
Mestre em Odontologia / Área de Concentração Odontopediatria - UFSC/SC, 2015
Clínica Privada em Curitiba/PR desde 2009.
Presidente da ABOPED, Regional Santa Catarina 2017/2019.
Professora e Coordenadora do Curso de Especialização e Atualização em Odontopediatria desde 2015
IAPD Membro do board 2019/21, 2021/23, 2023/25 - Membership Committee
Idealizadora da CAIXA GUIA - Odontopediatria, 2015
Clinical Adviser NuSmile no Brasil, desde 2019
Co-Fundadora e Diretora Acadêmica da Academia da Odontologia, 2020
Professora e Coordenadora do Curso de Especialização e Atualização em Odontopediatria - Caxias do Sul/RS desde 2022
Idealizadora do Estabilize, 2023
Fundadora, Membro e Secretária Financeira da SOBRASO

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