Extração precoce do primeiro molar permanente: por que e para quê?
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IAPD - International Association of Paediatric Dentistry

A extração do primeiro molar permanente (M1) em crianças é indicada por cáries profundas ou hipomineralização molar-incisivo (MIH). Mas obviamente que, principalmente os odontopediatras que acompanham antes e depois por longos anos, não é a primeira opção que lançamos mão quando atendemos um caso desafiador e com a possibilidade de extração. 

Extrair qualquer dente (decíduo ou permanente) precocemente sempre tem um “prejuízo”, um “porém”, um “detalhe” que precisa ser acompanhado com mais cautela ainda nas consultas de rotina. Ainda, na nossa vida de odontopediatras, é muito comum ouvirmos “ahh se é dente de leite pode extrair, pode cair, pode tirar..”, mas se é dente permanente o vocabulário é outro “pelo amor de Deus vamos salvar porque é dente de adulto né”.

Perder precocemente dentes decíduos, de leite, tem sim seus prejuízos, assim como os dentes permanentes. Cada um tem uma importância única na arcada e no momento da criança. Até mesmo a possível “não aceitação” de uma coroa de aço devido a cor sendo a única alternativa para salvar o dente deve ser considerada, tamanha importância dos dentes em nossa arcada dentária.

Contudo, sim o PRIMEIRO MOLAR PERMANENTE É UM DENTE “CHAVE”. Remover um dente tão importante como o primeiro molar permanente em fase de desenvolvimento levanta a preocupação: será que o espaço deixado será fechado espontaneamente pelos dentes subsequentes — ou será necessário tratamento ortodôntico, imediato ou não?

Claro que o fechamento espontâneo (sem aparelho) é mais que desejável porque evita tempo, custo e possíveis consequências para os tecidos periodontais, mas nem sempre conseguimos isso. 

O estudo que trago hoje é para nos lembrar que, como odontopediatras, devemos não só “prever” possíveis consequências como também tranquilizar os responsáveis da melhor época da extração e das condutas de intervenção. Pensar que nossa especialidade precisa entender até mesmo da erupção dos SISOS, é incrível, não? Ou seja, lá na primeira consulta você já consegue explicar aos pais a importância do acompanhamento a longo prazo e por no mínimo 20 anos da vida da criança. 

Então vamos lá. O artigo de hoje basicamente nos responde qual a melhor época de extrair o primeiro molar permanente quando necessário e o que devo prestar atenção com relação ao segundo molar permanente e terceiro molar permanente, siso!

Por que este artigo é importante para dentistas pediátricos

O fechamento espontâneo do espaço após extrações de 1° Molar Permanente superior exibe resultados mais favoráveis do que aqueles na mandíbula no local de extração.

Extrações de 1° Molar Permanente superior entre 8 e 12 anos de idade mostraram um fechamento espontâneo do espaço mais favorável do que aquelas realizadas aos 12 anos de idade ou após.

O desenvolvimento dentário de 2° Molar Permanente nos estágios E e F de Demirjian no momento da extração produziu os resultados mais favoráveis na mandíbula.

O que o estudo analisou

  • A revisão sistemática “Factors related to spontaneous space closure following early first permanent molar extraction: a systematic review” (IAPD, setembro de 2024) revisou a literatura de 1960 até 2024, nas principais bases (Scopus, PubMed, Web of Science etc.), considerando estudos clínicos (coortes, séries de casos, etc.) que avaliaram o fechamento de espaço após extração precoce de 1o Molar Permanente  em crianças de 5 a 15 anos.
  • No total, foram incluídos 15 estudos, com 1.159 pacientes e 2.310 segundos molares permanentes (M2) avaliados. 

Principais achados: fatores que favorecem o fechamento espontâneo do espaço

📈 Taxa de sucesso

  • No geral, a “fechamento espontâneo” ocorreu em ≈ 61,6% dos casos. 
  • Por arcada:
    • Maxila: ~ 85,3% dos casos.
    • Mandíbula: ~ 48,1% dos casos. 

Fatores associados a maior probabilidade de fechamento espontâneo

  • Estágio de desenvolvimento do segundo molar (M2): quando a extração do M1 ocorre enquanto o M2 está no estágio E de Demirjian (início do desenvolvimento radicular) — há maiores chances de fechamento. 
  • Arcada superior vs. inferior: a maxila apresenta chance muito maior de fechamento espontâneo do que a mandíbula. 
  • Presença do terceiro molar (M3), especialmente na mandíbula: a existência de M3 está associada a maior chance de a M2 migrar e fechar o espaço. 
  • Idade na extração (principalmente para mandíbula): para molares inferiores, extrações entre 8 e 10 anos estão associadas a melhores resultados. 

Limitações e cautelas

  • A qualidade das evidências é baixa: a maioria dos estudos incluídos são retrospectivos, com diferentes metodologias, sem randomização, e muitas vezes não controlaram adequadamente fatores de confusão. 
  • alta heterogeneidade entre os estudos — ou seja, os resultados variam bastante de um estudo para outro.
  • Por isso, apesar de haver tendências claras, não há garantia de que o fechamento espontâneo ocorrerá sempre — e o risco de necessidade de ortodontia posterior permanece.

O que isso significa para a prática clínica

  • Em casos de extração precoce do primeiro molar permanente, a avaliação cuidadosa do estágio de desenvolvimento do segundo molar e da presença de terceiro molar pode ajudar a prever se o espaço provavelmente será fechado espontaneamente.
  • Quando as condições forem favoráveis — especialmente na maxila, com M2 em estágio E e com M3 presente — há boas chances de evitar ortodontia adicional.
  • Contudo, dado o nível de evidência limitado, a tomada de decisão deve ser individualizada, considerando riscos e benefícios, e explicando aos responsáveis pela criança a possibilidade de tratamentos complementares.

GOSTOU? Click aqui para assistir o video no youtube sobre este blog e mais considerações clínicas do meu ponto de vista!

No site da Academia da Odontologia, sugiro você assistir ao curso “Remoção dos terceiros molares permanentes” e “Impactação dos primeiros molares permanentes”.

Até a próxima

Carla S. Pereira. 

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Carla Pereira

Graduada em Odontologia pela UFSC em 2009
Especialista em Odontopediatria - PUC/PR, 2011
Habilitação em Sedação Consciente com Óxido Nitroso, 2011
Mestre em Odontologia / Área de Concentração Odontopediatria - UFSC/SC, 2015
Clínica Privada em Curitiba/PR desde 2009.
Presidente da ABOPED, Regional Santa Catarina 2017/2019.
Professora e Coordenadora do Curso de Especialização e Atualização em Odontopediatria desde 2015
IAPD Membro do board 2019/21, 2021/23, 2023/25 - Membership Committee
Idealizadora da CAIXA GUIA - Odontopediatria, 2015
Clinical Adviser NuSmile no Brasil, desde 2019
Co-Fundadora e Diretora Acadêmica da Academia da Odontologia, 2020
Professora e Coordenadora do Curso de Especialização e Atualização em Odontopediatria - Caxias do Sul/RS desde 2022
Idealizadora do Estabilize, 2023
Fundadora, Membro e Secretária Financeira da SOBRASO

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