A sedação em odontopediatria vive um momento de inflexão. Tudo indica que 2026 será decisivo para o início de uma regulamentação no Brasil, sob a tutela do CFO — Conselho Federal de Odontologia.
Tem quem reclame da demora. E terá quem, quando a decisão finalmente sair, diga que foi resolvido de uma hora para a outra. Mas basta olhar para os EUA — referência mundial no tema, com décadas de publicações, guidelines e ajustes constantes na legislação — para entender que mudanças consistentes não nascem de uma virada de chave. No Brasil, não seria diferente.
Estamos caminhando a passos lentos, e isso exige paciência. A regulamentação não vai agradar a todos — e tampouco será a palavra final sobre o assunto. Muito ainda vai ser debatido, revisado e ajustado.
O fato central é este: precisamos atender nossos pacientes. E a realidade do consultório atual é mais complexa do que nunca — pacientes fóbicos, neurodivergentes, famílias que resistem à estabilização protetora (técnica que, vale dizer, é segura e embasada em guidelines — minha reserva é pessoal quanto à sua aplicação rotineira). Nesse cenário, o recurso farmacológico não é mais exceção: é parte do repertório clínico, desde que praticado com embasamento científico e responsabilidade.
Sobre técnicas e tipos de sedação, já escrevi um artigo completo aqui no blog — vale a leitura “Sedação e Manejo em Odontopediatria: Faz Sentido?”. Mas o tema que me perguntam com mais frequência é outro, e é exatamente sobre ele que quero falar hoje:
“Com sedação, ainda preciso fazer manejo? A odontopediatria clássica acabou?”


A resposta vem do mais recente livro do Professor Malamed — referência mundial em sedação odontológica —, atualmente em tradução para o português e com lançamento previsto no EBSO, o maior e único congresso de sedação em odontologia do Brasil. Acesse o site do evento
Manejo do Paciente e Indicadores Clínicos
O manejo adequado do paciente pediátrico é, na sedação em odontopediatria, tão importante quanto a própria técnica farmacológica. A criança que chega à primeira consulta já traz consigo um repertório de influências — positivas e negativas — que vão moldar sua resposta ao tratamento. Um manejo bem conduzido forma pacientes com atitudes positivas para o futuro; ao contrário, experiências mal geridas alimentam medo, apreensão e resistência crescentes.


Fatores que Influenciam a Resposta da Criança
Antes de qualquer decisão clínica, é fundamental compreender que o comportamento da criança no consultório não é aleatório — ele é o resultado de uma soma de influências. Algumas estão além do nosso controle; outras são diretamente moldadas por nós. Veja os principais fatores:
| Fator | Impacto |
| Atitudes dos pais | Influência profunda; atitude positiva cria ambiente favorável. Crianças <4 anos são mais afetadas pela ansiedade parental |
| Avós como acompanhantes | Frequentemente representam autoridade máxima, tendendo a agir conforme sua própria visão, não necessariamente a do cirurgião-dentista |
| Experiência prévia dos pais | Experiências traumáticas são transmitidas não verbalmente; crianças observam sinais sutis |
| Irmãos e amigos | Experiências traumáticas anteriores em siblings geram influência extremamente negativa |
| Experiência prévia da criança | Experiências traumáticas (ex.: injeção dolorosa) provocam comportamento negativo |
Fatores Controláveis pelo Cirurgião-Dentista
Atitude e Aparência Profissional
A aparência e a postura do profissional comunicam muito antes de qualquer palavra. Em odontopediatria, pequenos detalhes fazem diferença real:
- Uniformes: scrubs coloridos ou com estampas geram respostas mais positivas do que jalecos brancos em crianças pequenas;
- EPIs: luvas, óculos e máscaras devem ser apresentados e simulados antes do uso — a familiarização reduz o estranhamento;
- Auxiliares: na clínica pediátrica, o pessoal auxiliar muitas vezes tem mais contato direto com a criança do que o próprio dentista. Postura, tom de voz e aparência da equipe importam tanto quanto os do profissional.
Horário e Duração da Consulta
O agendamento estratégico é uma ferramenta de manejo. Evite horários próximos ao sono ou às refeições. Para crianças menores, o início da manhã costuma ser o período de melhor cooperação.
Quanto à duração, o ideal para pacientes pequenos é entre 30 e 45 minutos. Consultas mais longas tendem a deteriorar o comportamento — dado confirmado por Jamali et al., que identificaram uma tendência clara de piora comportamental conforme o tempo de tratamento aumenta.
Ambiente do Consultório
- Espaço acolhedor e atrativo na recepção para crianças;
- Cores, isolamento acústico e controle de odores são fatores cruciais;
- Brindes ao final como gesto de acolhimento, não como recompensa por comportamento;
Vale um dado de contexto: medo e ansiedade odontológica afetam cerca de 9% dos meninos e adolescentes. Meninas, em média, apresentam níveis mais elevados de ansiedade e maior frequência de dificuldades comportamentais durante o atendimento — o que reforça a necessidade de um manejo individualizado, sensível ao perfil de cada paciente.
Avaliação Comportamental — Escala de Frankl
A Escala de Frankl é uma das ferramentas de avaliação comportamental mais utilizadas na odontopediatria — tanto na pesquisa científica quanto na prática clínica. Ela classifica o comportamento da criança em quatro categorias, permitindo ao profissional orientar a abordagem mais adequada:
| Classificação | Comportamento |
| 1 — Definitivamente negativa | Recusa, choro intenso, medo, negativismo extremo |
| 2 — Negativa | Relutância, falta de cooperação, atitude negativa não acentuada |
| 3 — Positiva | Aceitação cautelosa, disposição para cooperar com reservas |
| 4 — Definitivamente positiva | Boa relação, interesse, risos, satisfação |
Murphy et al. demonstraram que os escores na Escala de Frankl têm relação direta com a atitude dos pais em relação à odontologia — reforçando o quanto o ambiente familiar impacta o comportamento clínico da criança.
Classificação de Wright e Indicadores de Sedação
A classificação de Wright organiza os pacientes pediátricos em três perfis fundamentais para a tomada de decisão clínica:
- Cooperativo — a maioria das crianças. Respondem bem à abordagem tradicional do dizer-mostrar-fazer;
- Incapaz de cooperar (pré-cooperativo) — crianças muito pequenas ou com condições que limitam sua capacidade de compreensão e resposta;
- Potencialmente não cooperativo — inclui perfis variados: a criança descontrolada, a desafiadora, a tímida, a cooperativa tensa e a que apresenta comportamento de lamúria.


Quando indicar sedação?
O paciente sem capacidade de cooperação frequentemente exige sedação moderada ou profunda para que o tratamento seja realizado com segurança e qualidade. Quando a sedação se mostra insuficiente, a anestesia geral passa a ser a alternativa indicada.
Já o paciente potencialmente não cooperativo apresenta um cenário mais nuançado: pode ou não necessitar de sedação. Nesse grupo, as atitudes, a experiência clínica e as habilidades relacionais do profissional e de sua equipe são fatores frequentemente decisivos — e é exatamente aqui que o manejo comportamental demonstra todo o seu valor, mesmo em contextos de suporte farmacológico.
Referências principais: Malamed (capítulo sobre manejo do paciente pediátrico); Dean JA. McDonald and Avery’s dentistry for the child and adolescent, 11ª ed, 2022; Klingberg & Broberg, revisão 1982–2006.[spp]
Sedação e Manejo: Aliados, Não Substitutos
A sedação em odontopediatria não elimina a necessidade de manejo — ela a amplifica. Conhecer o perfil comportamental da criança, entender os fatores que influenciam sua resposta e saber aplicar as ferramentas corretas de avaliação (como as Escalas de Frankl e Wright) são competências que continuam sendo indispensáveis, com ou sem recurso farmacológico.
A odontopediatria clássica não acabou. Ela evoluiu — e integrou novos recursos ao seu repertório.
Se você quer se aprofundar nesse tema, acompanhe os próximos conteúdos aqui no blog. E se estiver pronto para dar um passo além na sua prática clínica com sedação, [confira os cursos e mentorias disponíveis — INSERIR LINK INTERNO].
Até mais, Carla S. Pereira


